'Sou contra a destruição das marcas da história colonial', diz historiadora portuguesa





H√° cinco d√©cadas que Isabel Castro Henriques estuda a hist√≥ria africana. A historiadora lan√ßou em agosto o ¬ęRoteiro Hist√≥rico de uma Lisboa Africana¬Ľ (ed. Colibri) e explica como os africanos, que chegaram como escravos, intervieram na constru√ß√£o social, cultural e econ√īmica de Lisboa, cidade que tamb√©m constru√≠ram.





Depois de ter iniciado os seus estudos na Sorbonne, Fran√ßa, em 1970, onde estudou o s√©culo 15, dedicou-se a descobrir as marcas, escassas e escondidas, desta hist√≥ria e a entender onde e como come√ßou o preconceito. Esta √© a hist√≥ria que agora ajuda a descobrir e revelar ‚Äďisto, afirma, √© mais √ļtil do que destruir ou esconder.

Há quem diga que Lisboa é a cidade mais africana da Europa. Concorda? Lisboa tem uma história africana que será certamente a mais importante da Europa. Por exemplo, Lisboa teve um bairro africano antes de todas as outras, não há outro bairro como o Mocambo em lado nenhum.

Por outro lado, é evidente que Portugal teve um papel central no tráfico negreiro, introduzindo no país milhares de escravos durante os séculos 16, 17, 18. Isto além dos que iam para o Brasil e dos muitos que nasciam em Portugal, filhos de mães escravas, até 1773, data em que a Lei do Ventre Livre, do Marquês de Pombal, que liberta da escravatura os filhos das mulheres escravas. Portanto, nesse aspecto, podemos, sim, afirmar que Lisboa é cidade a mais africana da Europa.

E Lisboa assume bem essa identidade? Aquilo que se tem feito hoje e o que se procura fazer no futuro pr√≥ximo vai nesse sentido: assumir essa identidade, reconhecer e valorizar essa presen√ßa africana na constru√ß√£o, na manuten√ß√£o e na cultura da cidade. Mas n√£o √© suficiente. √Č necess√°rio fazer muito mais.

O que √© que quer dizer com ¬ęfazer a descoloniza√ß√£o da cidade¬Ľ? √Č integrar esse reconhecimento de que os africanos e a sua hist√≥ria s√£o parte do tecido lisboeta? O que √© que isso quer dizer exatamente? O conte√ļdo imediato √© o de desconstruir na cidade de Lisboa tudo aquilo que tem a ver com o imagin√°rio da coloniza√ß√£o, a que podemos chamar ¬ęcultura colonial¬Ľ. As cidades foram marcadas por todo o per√≠odo colonial portugu√™s e descolonizar a cidade ser√° transformar as marcas que existem e s√£o consideradas negativas numa cidade que pretende combater preconceitos, formas discriminat√≥rias e posi√ß√Ķes racistas e ser uma cidade aberta, multicultural e acolhedora de todos os homens e mulheres de todas as cores.

Defende a elimina√ß√£o dessas marcas, como est√°tuas e monumentos? N√£o. Eu sou contra a destrui√ß√£o das marcas da hist√≥ria colonial. Acredito que a cidade de Lisboa tem v√°rias hist√≥rias. Tem uma hist√≥ria romana, √°rabe, africana ‚Äďque queremos dar agora a conhecer‚Äď e tem uma hist√≥ria colonial, entre v√°rias outras. A hist√≥ria colonial faz parte da identidade portuguesa. E tal como nunca dev√≠amos ter silenciado as outras hist√≥rias, n√£o devemos silenciar a hist√≥ria colonial.

Silenciar um aspeto da hist√≥ria global √© esconder e limitar a reflex√£o sobre esse tempo violento e problem√°tico, que √© fundamental para podermos assumir, ultrapassar, reconhecer os erros e n√£o voltar a comet√™-los. Foi esta uma das perspetivas fundamentais do projeto ¬ęA Rota do Escravo¬Ľ, da Unesco, que era a de quebrar o sil√™ncio. Quebrar o sil√™ncio da escravatura, fato hist√≥rico que, em Portugal, foi marcado por um longo e grave silenciamento. Esconder e silenciar √© uma maneira de n√£o aprender com a hist√≥ria, de n√£o a reconhecer e sobretudo de n√£o a ultrapassar e assumir. Eu defendo a constru√ß√£o (e n√£o a destrui√ß√£o) de todas as hist√≥rias de Lisboa, em particular aquelas que foram esquecidas, como a hist√≥ria africana da cidade.

Ou seja, seria, por exemplo, manter o que existe, mas acrescentar marcos topon√≠micos, para construir um outro conhecimento hist√≥rico de Lisboa ‚Äďincluindo todas as comunidades que fizeram parte do desenvolvimento da cidade? Exatamente. O meu trabalho tem sido sempre a constru√ß√£o da hist√≥ria. √Č evidente que entendo que existem monumentos e est√°tuas que poder√£o chocar a sensibilidade dos lisboetas‚Ķ Nesse caso, retirem-se as est√°tuas, se estiverem muito expostas, e coloquem-se eventualmente em outros espa√ßos, como os museol√≥gicos. Os arquivos e bibliotecas tamb√©m guardam documentos escritos cheios de viol√™ncia ‚Äďe n√≥s n√£o vamos rasg√°-los, destru√≠-los. Antes vamos utiliz√°-los criticamente.

Portanto √© contra a destrui√ß√£o das mem√≥rias, mesmo que alguns as achem ofensivas? Sou contra a destrui√ß√£o e pela preserva√ß√£o. At√© para ser poss√≠vel estudar, interpretar e compreender os fen√īmenos hist√≥ricos. Esta √© a quest√£o fundamental. Da mesma forma que os alem√£es n√£o destroem os locais do Holocausto, muito pelo contr√°rio, s√£o exibidos aos turistas, observados e estudados, precisamente para que se veja o que aconteceu e n√£o se repita, Portugal n√£o tem que esconder a hist√≥ria colonial. Ela existiu e temos que a reconhecer. Temos de olhar para os monumentos, um a um, e estud√°-los como documentos hist√≥ricos. A hist√≥ria tem de ser estudada, pensada, refletida.

Por que e quando come√ßou a estudar a presen√ßa africana em Portugal? S√≥ a partir do ano 2000 e foi ent√£o que percebi uma hist√≥ria desconhecida, silenciada e silenciosa. Deparei-me com grandes dificuldades para encontrar documentos escritos, iconogr√°ficos, fontes hist√≥ricas necess√°rias √† elabora√ß√£o dessa hist√≥ria. Como sabemos, os africanos vieram para Portugal em meados do s√©culo 15, como escravos. Vieram despidos de tudo, considerados ¬ęmercadoria¬Ľ, ¬ęcoisas¬Ľ destinadas ao trabalho, desumanizados, pelo que as suas vidas em Portugal n√£o suscitaram o interesse dos investigadores, n√£o foram consideradas dignas de registo, nem objeto de estudo.

Os africanos que chegaram a Lisboa nessa √©poca eram todos escravos? Sim, quase todos. De meados do s√©culo 15 ao s√©culo 18, a grande maioria era escravos. N√£o quer dizer que n√£o existissem africanos que chegassem como pessoas livres. Por exemplo, no s√©culo 16, havia rela√ß√Ķes intensas entre a corte portuguesa e o Rei do Congo, que enviava para estudar em Portugal alguns membros da sua casa real. Havia tamb√©m africanos que estavam ligados √† igreja. Outros tornaram-se livres ‚Äďos forros‚Äď, e alguns, sobretudo mesti√ßos, assumiram fun√ß√Ķes relevantes na sociedade portuguesa, em particular a partir do s√©culo 18. Mas a maioria era escrava e vinha para trabalhar nas tarefas mais duras e desvalorizadas da sociedade portuguesa.

Como √© que os africanos se estabeleceram em Lisboa? Como viviam? Chegam como escravos, s√£o desembarcados, avaliados ‚Äďnormalmente na zona do Terreiro do Pa√ßo‚Äď e comprados. Havia um espa√ßo chamado Casa dos Escravos, como havia a Casa do Trigo ou a Casa das Madeiras. Eram vendidos a senhores da burguesia ou aristocracia. Normalmente, viviam nos espa√ßos das casas senhoriais, muitas vezes como dom√©sticos.

E como se tornavam forros, ou livres, e o que é que isso significava realmente? Desde muito cedo, verificou-se a alforria. Isto é, alguns senhores davam-lhes a liberdade. Eram mais independentes, embora ocupassem na esfera e na hierarquia social os trabalhos mais desvalorizados. Alguns viviam na casa dos senhores. As ordens religiosas, os conventos em Lisboa, por exemplo, eram grandes consumidores de escravos. Desde o final do século 15, princípio do século 16, os forros começam a organizar-se e a viver na cidade de Lisboa, nas suas casas, muitas vezes arrendadas.

Mas havia também quem tivesse casa própria. Há nota nos documentos, sobretudo de mulheres que têm casa própria, porque possuem mais bens, que normalmente conseguem através da atividade comercial. Vivem nos bairros antigos de Lisboa: na Mouraria, Alfama, Bairro Alto. Há também uma massa importante de africanos (livres) que começa a estabelecer-se, sobretudo no século 16, numa zona ocidental da cidade, mas considerada já fora do espaço urbano de Lisboa.

No bairro do Mocambo? Sim, no bairro do Mocambo! As fronteiras ocidentais de Lisboa situavam-se, naquela √©poca, onde √© hoje a Rua Po√ßo dos Negros, a Igreja de Santa Catarina. Depois temos a avenida D. Carlos 1¬ļ, e, do outro lado, come√ßava o Bairro do Mocambo, onde √© hoje a Madragoa.

Como √© que descobriu esse bairro? √Č a primeira a falar dele. Descobri este lugar quando fiz a investiga√ß√£o para o meu livro ¬ęHeran√ßa Africana em Portugal¬Ľ, em 2009. Sabia que o termo √© de uma l√≠ngua angolana ‚Äďo umbundu. Conhecia mocambos na hist√≥ria de √Āfrica. Eram lugares para onde fugiam os escravos das planta√ß√Ķes da cana de a√ß√ļcar, no mato. Mocambo significa lugar de ref√ļgio, de prote√ß√£o, aldeia, e √© sin√≥nimo de quilombo, como os que s√£o bem conhecidos no Brasil, cuja origem lingu√≠stica √© o kimbundu, tamb√©m l√≠ngua de Angola.

O que eu sabia dos mocambos suscitou-me logo um interesse particular e percebi que, com este nome, s√≥ poderia ser um espa√ßo africano. Tanto mais que havia, em Lisboa, bairros destinados a comunidades, como a Mouraria e a Judiaria. N√£o havia nenhuma ¬ępretaria¬Ľ, embora tenha encontrado uma ou outra refer√™ncia documental a este termo. Existia ent√£o o bairro do Mocambo, dos africanos.

Rec√©m-chegados, rec√©m livres‚Ķ como √© que os africanos se organizaram nesse bairro? Foi constru√≠do numa conjuga√ß√£o de interesses entre as autoridades portuguesas, que ali os viam de certa forma mais controlados. Para eles foi tamb√©m uma estrat√©gia viverem numa zona onde eram todos de origem africana ‚Äďembora de l√≠nguas e culturas diversas‚Äď e onde podiam, um pouco longe do olhar dos portugueses ‚Äďpreconceituoso e cr√≠tico‚Äď, praticar atividades culturais, cerim√≥nias e rituais que lhes permitiam manter a africanidade.

O bairro foi criado por alvar√° r√©gio em 1593, e seria o segundo dos seis bairros em que estava organizada a cidade de Lisboa. O bairro vai crescendo e a partir do s√©culo 17 aparecem portugueses. Sobretudo ligados √†s tarefas do mar ‚Äďpescadores, marinheiros, vendedoras de peixe.

Tamb√©m nisto Lisboa foi singular? O Bairro do Mocambo √© certamente √ļnico na Europa de ent√£o e ao longo dos s√©culos seguintes. N√£o havia outro bairro africano e foi tamb√©m o mais antigo instalado fora da √Āfrica. Os quilombos e mocambos no Brasil, mesmo em Salvador, s√£o todos posteriores ao de Lisboa. Na segunda metade do s√©culo 19, o bairro do Mocambo desaparece e a sua mem√≥ria perde-se rapidamente no tempo.

Lisboa era uma cidade de m√ļltiplas na√ß√Ķes. Nesta √©poca os africanos eram considerados portugueses, lisboetas? A maioria dos que nasciam em Portugal, se fossem filhos de escravos, escravos eram. N√£o tinham nacionalidade, nem cidadania. Os forros, que se saiba, durante este tempo, ficam consagrados como forros ‚Äďque remete para a origem escrava. Penso que s√≥ com a aboli√ß√£o da escravatura, em meados do s√©culo 19, √© que os descendentes de africanos ‚Äďj√° n√£o entravam legalmente escravos em Portugal desde os anos 1761, legisla√ß√£o do Marqu√™s de Pombal, que a proibiu‚Äď transformaram-se lentamente em portugueses. Embora n√£o lhes fosse dada a cidadania. Ainda hoje continua a ser dif√≠cil.

√Č essa a hist√≥ria que a leva a concentrar em Lisboa, no seu √ļltimo livro ¬ęRoteiro Hist√≥rico de uma Lisboa Africana¬Ľ? Havia e h√° mais documenta√ß√£o escrita e iconogr√°fica sobre Lisboa do que sobre o resto do pa√≠s. A maior concentra√ß√£o de africanos era nos centros urbanos, e em particular na capital. No s√©culo 16, 10% da popula√ß√£o de Lisboa era africana. Quando observamos a hist√≥ria de Lisboa, encontramos mais gente africana vis√≠vel, os escravos e os forros, nas suas m√ļltiplas atividades econ√īmicas, sociais, religiosas. Logo, foi poss√≠vel recolher mais informa√ß√£o e estudar de forma mais pormenorizada e densa.

Diz que os negros tiveram uma interven√ß√£o na vida social, cultural e econ√īmica na vida da cidade. Lisboa n√£o seria o que √© sem essa presen√ßa? Acredito que a constru√ß√£o e a evolu√ß√£o de Lisboa, como de qualquer cidade, tem sempre a ver com aqueles que l√° vivem e trabalham. E desempenham um papel fundamental na constru√ß√£o da cidade. Logo, os africanos foram uma massa importante de popula√ß√£o que tinha fun√ß√Ķes laborais em todos os dom√≠nios. Ocupavam-se do que era rejeitado pelos portugueses, trabalhos desclassificados, considerados inferiores, mas que eram indispens√°veis √† gest√£o urbana. Por exemplo, a limpeza da cidade, a distribui√ß√£o da √°gua, a circula√ß√£o de informa√ß√£o ‚Äďos africanos funcionavam como ¬ęcorreio¬Ľ.

Referiu tamb√©m ao com√©rcio. Sim, a atividade comercial era extremamente desenvolvida pelos africanos e em particular pelas mulheres africanas. Percorriam a cidade a p√© e vendiam os mais diversos produtos: peixe, p√£o, bolos, verduras e frutas, sal, cereais, carv√£o.‚Ķ E tinham freguesas, clientes habituais, que diariamente as aguardavam para se abastecerem. A atividade comercial era intensa e foi sempre importante. A preserva√ß√£o e manuten√ß√£o das casas, tamb√©m. Uma das figuras africanas que percorreu toda a hist√≥ria √© a do africano chamado o Preto Caiador, que caiava os edif√≠cios da cidade. Existem in√ļmeras representa√ß√Ķes iconogr√°ficas em que vemos o caiador africano. Caiavam as casas, preservavam os monumentos, arranjavam cal√ßadas e ruas, tudo o que era a conserva√ß√£o da cidade, e isto era fundamental.

E sobrava-lhes tempo fora o trabalho? H√° uma interven√ß√£o permanente na parte l√ļdica, na m√ļsica, na dan√ßa e na religi√£o. Participavam ativamente como membros das confrarias, em particular, nas prociss√Ķes, nos atos religiosos, que como sabemos se desenvolviam e proliferavam na cidade de Lisboa. N√£o s√≥ como confrades, pois pertenciam a v√°rias confrarias e irmandades ‚Äďnomeadamente √† de Nossa Senhora do Ros√°rio dos Homens Pretos, na igreja de S√£o Domingos em Lisboa, no final do s√©culo 15, para acolher precisamente os africanos, escravos ou forros. As confrarias protegiam os africanos, permitiam melhores condi√ß√Ķes de vida, mais f√°cil integra√ß√£o na sociedade e rela√ß√Ķes sociais importantes para desenvolveram as suas atividades laborais. E assim os escravos conseguiam os valores necess√°rios para comprar a liberdade.

Disse há pouco que a história africana continua a ser mal conhecida, ainda silenciosa. Como poderia ser diferente em Lisboa? Já é mais conhecida, mais divulgada, graças precisamente a uma série de estudos que foram aparecendo. O que se pode fazer para alargar esse conhecimento é desenvolver sistematicamente projetos diversificados: culturais, musicais, cinematográficos. E no ensino, é fundamental, a necessidade de remodelar e renovar os manuais de ensino.

E fora da escola? Eu trabalho, por exemplo, com a Associa√ß√£o Cultural e Juvenil Batoto Yetu num projeto de identifica√ß√£o e explica√ß√£o dos lugares da mem√≥ria hist√≥rica africana de Lisboa: atrav√©s de um passeio, percorrer os s√≠tios da presen√ßa africana na cidade. Estamos desenvolvendo outro projeto, muito importante, de placas topon√≠micas explicativas de lugares de Lisboa, onde √© poss√≠vel reconhecer mem√≥rias africanas (e agora preserv√°-las, atrav√©s das placas). S√£o 20 lugares de Lisboa. O projeto inclui tamb√©m duas est√°tuas, uma delas o Busto do Pai Paulino ‚Äďfigura oitocentista importante na defesa das popula√ß√Ķes africanas de Lisboa‚Äď, que est√° pronta e vai ser colocada no Largo de S√£o Domingos.

Muita coisa mudou nos √ļltimos anos? Podemos considerar que depois da independ√™ncia das col√≥nias, sobretudo, a presen√ßa da comunidade africana em Lisboa passou a ser vista de forma diferente? Penso que logo a seguir √† independ√™ncia, n√£o houve uma grande aten√ß√£o em rela√ß√£o √† hist√≥ria africana de Lisboa. O interesse pelas quest√Ķes africanas surge sobretudo a partir do final do s√©culo 20. √Č um problema do s√©culo 21 que come√ßa a impor-se, a surgir no contexto intelectual, cultural e social portugu√™s, nomeadamente atrav√©s da ades√£o a formas culturais africanas atuais como a m√ļsica, a dan√ßa, o cinema, as artes pl√°sticas. Isto fez emergir as comunidades de origem africana, quer os afrodescendentes, quer os imigrantes africanos ‚Äďque existem muitos. Portanto tem havido alguma aten√ß√£o, mais visibilidade, mais interesse pela √Āfrica. Mas ainda n√£o chega‚Ķ A popula√ß√£o portuguesa foi muito marcada, durante s√©culos, por uma ideologia desvalorizadora dos africanos.

Um preconceito? Um preconceito que ainda n√£o desapareceu. Deu origem a uma forte cultura colonial, que ainda permanece. As marcas dessa cultura emergem no tecido social portugu√™s, atrav√©s da l√≠ngua, de representa√ß√Ķes, de formas de atua√ß√£o e de viv√™ncia. E vemos isso nas dificuldades ainda existentes de um reconhecimento natural da cidadania relativamente √†s popula√ß√Ķes afrodescendentes. Quando se observa algu√©m que tenha uma marca f√≠sica mais escura, sempre se questiona de onde √©, de onde veio. Parte-se do princ√≠pio de que n√£o s√£o portugueses, quando na realidade muitos s√£o portugueses. T√£o portugueses quanto todos os outros.

Diz no seu livro que esse preconceito surgiu a partir do s√©culo 19, curiosamente ap√≥s a aboli√ß√£o da escravatura. Refere que √© neste per√≠odo que s√£o desenvolvidos estudos, por exemplo de Oliveira Martins, que fazem uma desvaloriza√ß√£o f√≠sica, racial e cultural dos africanos. Penso que esse √© um momento do agravamento do preconceito. O preconceito vem desde o s√©culo 15 com a chegada. Havia um rep√ļdio, o problema da cor da pele, do corpo. Depois, a rejei√ß√£o das pr√°ticas culturais. E depois, uma rejei√ß√£o social, porque eram escravos. Ainda hoje, privilegiam-se os que pertencem a classes sociais mais elevadas e discriminam-se portugueses das classes sociais mais desvalorizadas. Esse preconceito foi-se modificando e sedimentando em fun√ß√£o dos diferentes contextos e conjunturas hist√≥ricas, sem ruturas, num processo cont√≠nuo. O s√©culo 19 introduziu uma dimens√£o fundamental do preconceito que foi a dimens√£o cient√≠fica.

Científica como? A partir daí não era só o físico, o social e o cultural, era também considerado inferior do ponto de vista científico. Esta vertente estava naturalmente relacionada com as teorias que se desenvolveram na Europa. As teorias raciais e de hierarquização cultural dos vários grupos à escala do mundo. E forneceram uma dimensão científica ao preconceito, tornando-o mais robusto e legítimo. O século 20 colonial agrava.

Devido √† reivindica√ß√£o da independ√™ncia? Exato, contra os africanos que recusam a domina√ß√£o europeia, nomeadamente no princ√≠pio do s√©culo 20, com as chamadas campanhas de pacifica√ß√£o na √Āfrica. No caso portugu√™s, a guerra colonial a partir de 1961. Os africanos s√£o vistos n√£o como combatentes, mas como terroristas: mais uma formula√ß√£o extremamente negativa. Logo, o preconceito j√° vem de tr√°s e da√≠ a dificuldade em elimin√°-lo. Est√° extremamente enraizado na popula√ß√£o portuguesa.

Nacho Vega

Nacho Vega. Nac√≠ en Cuba pero resido en Espa√Īa desde muy peque√Īito. Tras cursar estudios de Historia en la Universidad Complutense de Madrid, muy pronto me interes√© por el periodismo y la informaci√≥n digital, campos a los que me he dedicado √≠ntegramente durante los √ļltimos 7 a√Īos. Encargado de informaci√≥n pol√≠tica y de sociedad. Colaborador habitual en cobertura de noticias internacionales y de sucesos de actualidad. Soy un apasionado incansable de la naturaleza y la cultura. Perfil en Facebook:¬†https://www.facebook.com/nacho.vega.nacho Email de contacto: nacho.vega@noticiasrtv.com

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