Jilliene Sellner quer falar-nos sobre a arte que se faz em rede









H√° sensivelmente dois anos, a canadiana Jilliene Sellner ‚Äď que atualmente vive no Reino Unido ‚Äď criou a plataforma ‚ÄúHeya‚ÄĚ, um projecto para ligar compositoras do M√©dio Oriente em rede. As performances t√™m-se acumulado desde ent√£o, criando espa√ßo para se falar sobre a cria√ß√£o de m√ļsica experimental em certos pa√≠ses e de como as leis locais dificultam o acesso, a exposi√ß√£o e, claro, a liberdade de criar.

A situa√ß√£o atual de pandemia trouxe um novo significado ao projeto. E √© tamb√©m sobre isso que Jilliene Sellner e Zeynep AyŇüe Hatipońülu ir√£o falar esta ter√ßa-feira, 26 de maio, pelas 11 horas, em livestreaming no site do Teatro do Bairro Alto e na p√°gina de Facebook do Teatro. As conversas/performances de Jilliene Sellner ganharam um novo espa√ßo e significado num momento em que muitas restri√ß√Ķes afetam grande parte da popula√ß√£o e de que dificilmente se voltar√° ao normal. Pelo menos t√£o rapidamente.

O seu projeto, Heya, ganhou uma nova expressão neste tempos…

Sim, quando isto tudo come√ßou. Muitos m√ļsicos vinham ter comigo para perguntar como configurar ou apresentar espect√°culos em stream. Porque ainda n√£o se percebeu bem como se faz isso. H√° sempre um delay, √© muito dif√≠cil. Se n√£o estamos na Europa ou na Am√©rica do Norte‚Ķ quer dizer, mesmo na Inglaterra e at√© na Alemanha h√° pessoas com internet terr√≠vel. Pens√°vamos que t√≠nhamos boa internet, mas n√£o temos.

Sente que este ir√° ser o novo normal?
√Č territ√≥rio novo, desconhecido. M√ļsicos poder√£o estar juntos e tocar juntos, mas n√£o sei como ser√° em concerto. De momento, eu e uma das minhas colegas, em Beirute, estamos a trabalhar numa proposta para o fim de 2021. Estava a ter ideias de como fazer o projeto sem estarmos l√° e ela diz: ‚ÄúAh, estamos a assumir que tudo vai mudar?‚ÄĚ. E conclu√≠mos que era melhor apresentar o projeto como se tudo voltasse ao normal. Mas temos de deixar uma nota no final a dizer que √© podem acontecer altera√ß√Ķes e que ser√° poss√≠vel ver online, por exemplo. Em rela√ß√£o ao trabalho que estou a fazer, j√° desisti da ideia de que irei a Teer√£o. Em rela√ß√£o a Beirute, √© complicado agora, mesmo em termos de infraestruturas, de financiamento. Cairo parece estar um bocadinho melhor. Istambul parece que est√° a chegar mais tarde. Foi onde conheci a Ayse [Zeynep AyŇüe Hatipońülu], numa resid√™ncia, em agosto. A Turquia n√£o fazia parte da minha pesquisa, mas como achei que teria menos oportunidades de trabalhar no Teer√£o, decidir incluir a Turquia. Contudo, agora a situa√ß√£o est√° um bocado inst√°vel. Quando apresentei o meu projeto ao Goldsmiths College, assumi que n√£o iria viajar para esses pa√≠ses, necessariamente. N√£o queria que o projeto fosse dependente disso. E eles n√£o podem vir c√°, especialmente para Inglaterra, o Reino Unido est√° fechado‚Ķ

Mas como √© que decidiu iniciar estas conversas √† dist√Ęncia com os artistas?
Primeiro era apenas uma forma de prepara√ß√£o antes de os conhecer pessoalmente. Mas com a pesquisa que comecei a fazer, descobri que a network performance √© muito comum. √Č descrita como uma forma muito democr√°tica de trabalhar. Queria investigar dentro do grupo, queria ver as pessoas a trabalhar, queria que fosse pessoal e perceber o que est√£o a fazer, as suas experi√™ncias. A network performance obriga-te a ouvir, estares com aten√ß√£o, especialmente quando a infraestrutura da rede n√£o √© muito est√°vel. No in√≠cio, talvez tenha sido uma forma f√°cil de fazer trabalho. Mas depois apercebi-me que era uma forma muito democr√°tica de trabalhar. Porque toda a gente tem de se ouvir.





Tem confirmado as suas expectativas?
A din√Ęmica do grupo tem sido excelente. Sinto-me muito pr√≥xima das pessoas com quem trabalho. √Č um processo de co-cria√ß√£o, onde h√° inputs semelhantes. Os problemas surgem na infraestrutura. Por exemplo, em Beirute a eletricidade falta regularmente. Ou algu√©m fica preso no tr√°fico no Cairo durante tr√™s horas e tentam faz√™-lo dentro do carro. Mas quando fizemos performances entre Viena, Berlim, Istambul e Cairo, n√£o estava a controlar a mesa de mistura‚Ķ se est√°s a fazer uma performance e h√° outros intervenientes que controlam o som, √© quase como se existisse outro interveniente em que n√£o pensaste. Como √© m√ļsica experimental, por vezes o resultado √© algo ca√≥tico. Por vezes, penso nisto como experi√™ncias cient√≠ficas. Neste momento estou a trabalhar mais na est√©tica destas confer√™ncia. Quero estar mais em controlo de interfer√™ncias externas que possam existir.

Quando começou a fazer estas performances?
Desde 2018.

Sentiu que a tecnologia evoluiu deste ent√£o?
Penso que depende sempre dos locais. Há alguns sítios mais viáveis do que outros. Começámos por usar o Zoom… também usámos uma app específica para field recordings, mas não era muito fiável. Por vezes funciona e noutras crashava…

Como se chama?
Mic Shout. E us√°vamos Sound Maps para nos ouvirmos uns aos outros. Queria que fosse acess√≠vel e livre, n√£o queria que ningu√©m investisse dinheiro em equipamento ou em aplica√ß√Ķes. O Zoom n√£o tem o som mais claro, √© OK se estivermos com voz ac√ļstica. A Ayse toca violoncelo, por isso soa melhor do que quando eu uso o Ableton no Zoom. H√° muitas configura√ß√Ķes, tudo depende daquilo que a pessoa est√° a tocar, que instrumento, o que est√£o a usar, se √© ac√ļstico, digital‚Ķ

Estas performances têm criado impacto na divulgação do trabalho dos artistas?
Sim, a Nour Sokhon, uma das minhas colegas em Beirute, tem sido convidada para outros projetos.

Como √© que a situa√ß√£o atual tem afetado o trabalho dos m√ļsicos com quem colabora?
Muitas vezes tentam receber fundos europeus para os seus projetos, porque s√£o as oportunidades que est√£o mais ao seu alcance. Claro que em Teer√£o a situa√ß√£o √© bastante mais complicada. Tamb√©m h√° o preconceito sobre a m√ļsica feita no computador, que n√£o √© vista como m√ļsica em alguns locais, mas √© vista como tecnologia, e isso dificulta algum acesso. Em alguns pa√≠ses as mulheres n√£o podem cantar. Conseguir vistos, por vezes, tamb√©m √© muito dif√≠cil: sair do Ir√£o √© muito complicado. Depende sempre do pa√≠s com que estamos a falar. O financiamento das artes √© limitado, tamb√©m o √© aqui, mas nestes pa√≠ses √© completamente diferente.

Mas têm oportunidades na Europa?
Há algumas hipóteses de financiamento internacional ou de residências. Por vezes consegue-se…

O que vai acontecer esta terça-feira?
Ser√° uma nova experi√™ncia. Vou fazer uma introdu√ß√£o do projeto, mostrar alguns materiais sonoros do que andamos a trabalhar. Mas penso que, sobretudo, queremos falar de como a pandemia criou ainda mais dificuldades de movimentos a pessoas que j√° est√£o habituadas a isso. Falar de fronteiras, restri√ß√Ķes‚Ķ porque √© o normal das pessoas com quem trabalho, restri√ß√Ķes a coisas normais que assum√≠amos como parte da nossa vida, como acesso √† conta banc√°ria, eletricidade. Vamos falar sobre o que √© normal, o que n√£o √© o normal e o que √© agora normal, em geografias diferentes. Porque isso faz parte do projeto. E de como todos, agora, estamos restritos, de alguma forma.

Manuel Rivas

Fernando Rivas. Compagino mis estudios superiores en ingeniería informática con colaboraciones en distintos medios digitales. Me encanta la el periodismo de investigación y disfruto elaborando contenidos de actualidad enfocados en mantener la atención del lector. Colabora con Noticias RTV de manera regular desde hace varios meses. Profesional incansable encargado de cubrir la actualidad social y de noticias del mundo. Si quieres seguirme este es mi... Perfil en Facebook: https://www.facebook.com/manuel.rivasgonzalez.14 Email de contacto: fernando.rivas@noticiasrtv.com

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