'Elites não têm de concordar comigo, mas não precisam ter medo', diz Gabriel Boric à BBC





Ele admite que nunca pensou que chegaria a esse ponto. Prestes a completar 36 anos, idade que o habilita a se sentar na cadeira presidencial no Palácio La Moneda a partir de 11 de março, Gabriel Boric Font fuma um cigarro atrás do outro poucas horas antes de anunciar seu gabinete.





A equipe ao seu lado no governo, que promete profundas transforma√ß√Ķes sociais, √© provavelmente a mais diversa que o pa√≠s j√° viu: mais mulheres do que homens, metade oriunda de escolas p√ļblicas, membros de sua coliga√ß√£o pol√≠tica; s√£o um s√≠mbolo de um Chile que se afasta das elites sociais que governam o pa√≠s desde o retorno √† democracia, nos anos 1990.

¬ęEm um momento em que o mundo muda vertiginosamente, o Chile tamb√©m precisa mudar e se adaptar. Representamos a for√ßa de uma √©poca¬Ľ, disse Boric √† BBC News Mundo (servi√ßo em espanhol da BBC), na primeira entrevista a um ve√≠culo estrangeira ap√≥s vencer as elei√ß√Ķes presidenciais.

Foram quase duas horas de conversa em que ele falou n√£o apenas de uma ¬ęnova ordem¬Ľ para o Chile, mas tamb√©m de sua rela√ß√£o com a esquerda latino-americana – inclusive com ex-presidente Lula, com quem diz planejar colaborar caso o brasileiro se eleja -, suas refer√™ncias pol√≠ticas ao redor do mundo e a viol√™ncia vista durante a revolta social no pa√≠s.

Gabriel Boric РAcredito que representamos uma energia geracional de transformação que aprendeu ao longo do caminho a valorizar a história que nos constitui. Representamos o ar puro, a juventude, a novidade, mas com consciência da cadeia histórica dos processos. Também representamos que o status quo, ou o conservadorismo, é a pior coisa que pode acontecer ao Chile neste momento.

Num momento em que o mundo está mudando rapidamente, o Chile também precisa mudar e se adaptar. Representamos a força de uma era.

BBC News Mundo РO sr. acaba de anunciar um gabinete com 10 homens e 14 mulheres…





Boric – Que alegria poder falar isso nos dias de hoje. O fato de termos conseguido isso se deve √† luta de milhares de mulheres que, por muito tempo, empurraram as barreiras do que era considerado poss√≠vel, e agora com a √ļltima onda feminista ainda mais.

Mas não somos os primeiros a fazer isso. A presidente (Michelle) Bachelet em seu primeiro mandato fez um esforço para ter um gabinete conjunto, e as forças do conservadorismo rapidamente a cortaram.

BBC News Mundo – Por que diz isso?

Boric – Porque teve que mudar. O primeiro gabinete apresentado tinha paridade e ningu√©m repete o prato, disse; e na primeira mudan√ßa de gabinete, ela teve que fazer mudan√ßas por causa de press√Ķes que iam al√©m do que era seu desejo genu√≠no. Hoje n√≥s trazemos essa experi√™ncia tamb√©m. N√£o quero nos apresentar como pioneiros, mas estamos colhendo um legado que vai muito al√©m de n√≥s.

BBC News Mundo – E com ministros e ministros que v√™m de diferentes realidades educacionais… Qual √© a sinaliza√ß√£o que o sr. quer dar?

Boric – Que o Chile √© diverso, e que a diversidade tamb√©m deve ser expressa em suas institui√ß√Ķes e em sua pol√≠tica. Por muito tempo, a elite chilena foi excessivamente consangu√≠nea e n√£o conseguia enxergar al√©m de seus pr√≥prios narizes. Como parte de uma elite, acredito que temos o dever e a responsabilidade de sair de nossos c√≠rculos de conforto e pensar em um Chile mais abrangente.

BBC News Mundo – Entre seus ministros h√° um professor na pasta de Educa√ß√£o que foi formado em escola p√ļblica‚Ķ

Boric – Isso mesmo, em San Miguel, na mesma escola de Los Prisioneros (uma das principais bandas de rock do Chile). Pareceu-nos que este foi um gesto importante, para al√©m da compet√™ncia e voca√ß√£o profissional de Marco √Āvila. Creio que foi um gesto necess√°rio para o setor.

Por muito tempo tivemos acadêmicos sem sala de aula, engenheiros comerciais dirigindo a educação em nosso país. Acredito que era preciso um choque de sala de aula, que é onde as desigualdades e os desafios da experiência educacional se expressam com mais clareza. Isso não pode ser reforma sem sala de aula, sem meninos e meninas, não pode ser reforma sem professores.

BBC News Mundo РE uma mulher de 35 anos, a ex-presidente da Faculdade de Medicina, Izkia Siches, no Ministério do Interior…

Boric – Que coragem tem Izkia Siches. Mas isso vem sendo amplamente demonstrado h√° muito tempo. √Č uma lideran√ßa reconhecida pela sociedade chilena pelo papel que desempenhou nos momentos mais dif√≠ceis em que a pandemia nos atingiu.

De opini√Ķes firmes, mas ao mesmo tempo aberta a ouvir e convocar de forma transversal para um bem comum acima dos interesses pessoais. Acho que ela conseguiu dar sentido a uma faculdade de medicina que, por muito tempo, s√≥ defendia os interesses de um setor muito pequeno. E a partir da√≠ falou com a sociedade.

N√£o tenho d√ļvidas de que desempenhar√° um excelente papel no comando do Minist√©rio do Interior e Seguran√ßa P√ļblica, o que √© um tremendo desafio, porque √© um minist√©rio que tem sido tradicionalmente conturbado. Izkia tamb√©m est√° muito interessada em aceitar este desafio e confio plenamente nela.

BBC News Mundo РQue critérios o sr. utilizou para escolher a sua equipe de ministros?

Boric – Os crit√©rios que tivemos em vista foram, por um lado, que teria que ser um gabinete parit√°rio, ou com mais mulheres que homens; que incorporaria a diversidade de realidades, incluindo a presen√ßa da educa√ß√£o p√ļblica, tanto acerca da forma√ß√£o escolar como universit√°ria; um gabinete que conseguisse ser uma s√≠ntese de gera√ß√Ķes, por um lado a nossa gera√ß√£o que emergiu na vida p√ļblica em 2006 e tem crescido a partir de lutas sociais, mas tamb√©m outra que administrou o Estado por muito tempo e tem experi√™ncias valiosas das quais queremos aprender.

E tamb√©m um gabinete que representasse a amplitude social que conseguimos reunir na vit√≥ria de 19 de dezembro na base da coliga√ß√£o Apruebo Dignidad, mas que vai al√©m dela, com os partidos pol√≠ticos que nos deram seu apoio no segundo turno e t√™m representa√ß√£o parlamentar. Al√©m, tamb√©m, das organiza√ß√Ķes sociais e das pessoas independentes que mobilizaram e fizeram a diferen√ßa com as mulheres.

BBC News Mundo РA sinalização da escolha do atual presidente do Banco Central para administrar o Ministério da Fazenda foi aplaudido por empresários e investidores. Quanto lhe custou convencer o Partido Comunista desta nomeação?

Boric – As nomea√ß√Ķes, de todos os cargos, eram discutidas em termos de pessoas com os partidos. Eles me deram total liberdade para designar o gabinete, confinados aos crit√©rios que eu tinha para formar nossa equipe de trabalho. E nisso eu aprecio o n√≠vel da vis√£o que todas as partes tiveram.

BBC News Mundo – Foi uma decis√£o coletiva?

Boric РFoi uma decisão coletiva. Discuti no início do processo com o Apruebo Dignidad a possibilidade de incorporar independentes e militantes de partidos políticos que não faziam parte da coalizão, e eles me deram total liberdade para isso, algo que usei adequadamente.

Al√©m disso, acredito que no caso de Mario Marcel em particular, ele tem uma trajet√≥ria e experi√™ncia no Estado, na diretoria de or√ßamento, no Banco Central e tamb√©m no exterior, no Banco Mundial, na OCDE. Essa trajet√≥ria hist√≥rica √© inquestion√°vel, e que √© tamb√©m uma garantia de seriedade para as reformas que temos de impulsionar, que v√£o ser dif√≠ceis e que v√£o exigir um amplo consenso. Elas precisavam, penso eu, desta garantia de que uma pessoa como Mario Marcel pode dar, al√©m de suas firmes convic√ß√Ķes progressistas, j√° que ele se define como social-democrata.

BBC News Mundo – O sr. sempre responde no plural, em circunst√Ęncias em que todas as perguntas foram feitas ao sr., provavelmente porque toma suas decis√Ķes negociando com o resto de sua equipe. Estou me referindo a essa l√≥gica de assembleia que usa com seu grupo para tomar decis√Ķes, que pode ser bem democr√°tica, mas o sr. acha que poder√° ser eficiente na hora de tomar decis√Ķes?

Boric РHá muito mito em torno das assembleias. Toda organização requer algum tipo de ordem. E o desafio que temos como governo é gerar uma nova ordem.

Eu diria que o problema no Chile hoje é que essa ordem não existe. O contrato social foi quebrado. E, do meu ponto de vista, pelas elites. Portanto, para recuperar a ordem são necessárias novas formas e não repetir as mesmas do passado.

BBC News Mundo – De que maneira o contrato social foi quebrado?

Boric РQuando vemos que, durante a pandemia, por exemplo, as principais riquezas do Chile aumentaram substancialmente seu capital, enquanto a pobreza e a extrema pobreza cresceram pela primeira vez em décadas.

Quando vemos o nível de precariedade e vulnerabilidade que a classe média tem em relação às pessoas mais ricas deste país, o lugar onde se nasce continua a determinar de forma muito substantiva ou preditiva o lugar onde se vai morrer.

Por isso a promessa de igualdade, al√©m do fato de que sem d√ļvida houve maior acesso a bens b√°sicos, amplia√ß√£o de matr√≠culas, redu√ß√£o da pobreza‚Ķ Acredito que a promessa de igualdade e inclus√£o n√£o foi cumprida e, portanto, esse pacto social est√° quebrado e precisamos construir um novo.

BBC News Mundo – O sr. pode definir essa ¬ęnova ordem¬Ľ?

Boric – O que aspiramos √© poder construir uma sociedade colaborativa, na qual alguns de seus membros n√£o sejam abandonados ou discriminados pelas condi√ß√Ķes de vida em que tiveram que viver, e na qual o Estado tamb√©m seja capaz de garantir os direitos sociais de forma universal. independentemente de onde voc√™ nasceu, a etnia da qual voc√™ vem ou a da cor de sua pele. Isso requer reformas estruturais.

Sabemos que essas coisas n√£o podem ser alcan√ßadas da noite para o dia, sabemos que certamente nosso governo vai construir sobre o que foi constru√≠do no Chile nos √ļltimos 30 anos, mas tamb√©m vamos ter uma virada em rela√ß√£o √† l√≥gica pol√≠tica neoliberal de cada um por si na sociedade. Isso √© algo que temos que acabar.

N√£o podemos passar de ¬ęn√£o esper√°vamos¬Ľ para ¬ęnada aconteceu aqui¬Ľ. No Chile, ainda existe um mal-estar profundo que ainda n√£o foi resolvido em quest√Ķes sociais. H√° muita precariedade.

ESTILO DE GOVERNAR

BBC News Mundo – O sr. √© um homem de d√ļvidas ou de certezas?

Boric – Sou um homem mais de d√ļvidas do que de certezas. √Č importante acompanhar as convic√ß√Ķes que tenho com a possibilidade de duvidar delas, para melhorar. As pessoas que s√£o muito seguras de si me geram um certo distanciamento.

BBC News Mundo – Haver√° muitas vezes em que o sr. ter√° que tomar decis√Ķes dif√≠ceis sozinho. Quanto estresse essas circunst√Ęncias t√™m sobre o sr.?

Boric – √Č super dif√≠cil. N√£o ser√° a primeira vez, voc√™ tem que ser muito claro sobre suas convic√ß√Ķes e princ√≠pios e agir sempre em coer√™ncia com eles. √Äs vezes isso significa ir contra o que pode ser mais popular em um determinado momento ou o que as pessoas mais pr√≥ximas te dizem. H√° algo imposs√≠vel de se medir, que √© a intui√ß√£o em pol√≠tica, quando se tem convic√ß√Ķes firmes n√£o se vai ziguezagueando pela vida. Isso te permite ter uma trajet√≥ria previs√≠vel nesse sentido.

BBC News Mundo РQuais são as habilidades e competências que um presidente deve ter atualmente?

Boric РVenho formando a convicção de que um bom presidente não é aquele que está mais ocupado, não é aquele que tem mais papéis a sua volta. Um bom presidente é aquele que tem capacidade de ouvir, estar aberto a novas ideias mesmo que não venham de seu círculo mais íntimo. Um presidente que tem capacidade de refletir e convocar.

Sempre disse que a radicalidade da nossa proposta n√£o est√° em qu√£o forte as defendemos, em qu√£o esdr√ļxulas s√£o as interven√ß√Ķes, mas sim pela capacidade de convoca√ß√£o e pelo significado que d√£o √†s pessoas.

Primeiro você se torna classe dominante antes de ser classe dirigente. Você primeiro faz mudanças culturais antes de ter a chance de dirigi-las. E acho que nossa geração fez exatamente isso.

BBC News Mundo РVocê adotou uma nova forma de relacionamento com as pessoas, muito horizontal, próxima, afetuosa, as pessoas lhe contam seus problemas, você as ouve e anota. Não tem medo de gerar expectativas impossíveis de cumprir?

Boric – √Č uma preocupa√ß√£o, mas tamb√©m sempre digo √†s pessoas nessas conversas que n√£o vou conseguir cumprir tudo. E h√° uma sabedoria popular maior do que sup√Ķem as elites.

As pessoas sabem que isso vai ser difícil, sabem que as mudanças não virão da noite para o dia, mas querem que tentemos e que sejamos honestos ao tentar. Uma das coisas que importa para mim é contar a eles sobre os obstáculos que estamos enfrentando e por que há certas coisas que fazemos e outras que não podemos fazer.

E também para envolvê-los no processo de governo, para que eles se sintam parte dele, e nós vamos lá juntos, moldando expectativas com base na realidade. A realidade é mais teimosa do que qualquer ideologia.

BBC News Mundo – E quais s√£o suas expectativas?

Boric РMinha expectativa é que ao final de nosso mandato tenhamos um Chile que se encontre, onde colaboramos mais do que competimos; um Chile que se faz ouvir, e sobretudo um Chile mais justo no sentido de que as enormes desigualdades que hoje marcam o lugar de origem e o lugar da morte se diluem em função da trajetória de vida e das possibilidades que cada um tem como pessoa. E que essas possibilidades sejam cada vez mais iguais.

BBC News Mundo – N√£o √© f√°cil assumir este pa√≠s… O que est√° disposto a perder?

Boric – Essa pergunta √© boa porque na pol√≠tica sempre perguntam o que voc√™ quer fazer, mas n√£o do que voc√™ est√° disposto a desistir. O que importa para mim √© melhorar as condi√ß√Ķes de vida de forma sustent√°vel e sustent√°vel a tempo para quem habita o nosso pa√≠s. √Č preciso, portanto, ter mais do que limites r√≠gidos.

Estou disposto a conversar muito e me preocupo mais em chegar ao porto do que apenas seguir o caminho que tracei para mim no início. Temos um roteiro, mas se descobrirmos que há um precipício no caminho, encontraremos uma maneira de atravessá-lo, mesmo que isso torne a estrada um pouco mais longa.

BBC News Mundo – O sr. disse em muitas ocasi√Ķes que quer ser um presidente que no final de seu mandato tenha menos poder do que quando come√ßou. Ao que o sr. se refere especificamente?

Boric – Isso tem a ver de onde eu venho. Sou de Magalh√£es, nascido e criado nas margens do Estreito e desde que me lembro ou√ßo a palavra descentraliza√ß√£o sem que ela tenha tido grandes efeitos na vida cotidiana das pessoas. As decis√Ķes acabam sendo tomadas por uma elite de classe alta de Santiago, acima das realidades que se vivem nas comunas, nos bairros. E a figura presidencial est√° no topo disso.

De fato, a quantidade de expectativas que existem tem a ver com a idealiza√ß√£o da figura presidencial que vai muito al√©m das minhas caracter√≠sticas. √Č algo que aconteceu muitas vezes na hist√≥ria do Chile. Assim, espero, e isso estar√° na vanguarda do processo constitucional, que possamos construir um pa√≠s em que sejamos democr√°ticos, onde uma pessoa n√£o detenha tanto poder e onde o poder seja tamb√©m mais transparente, n√£o apenas em termos da Presid√™ncia da Rep√ļblica, mas tamb√©m dos famosos poderes f√°ticos que a exercem sem mediar qualquer tipo de decis√£o ou delibera√ß√£o democr√°tica.

Sendo mais espec√≠fico, espero que no final de nosso mandato tenhamos um Chile descentralizado, que nos bairros, nas comunas, nas regi√Ķes se possa decidir seu futuro mais do que a partir do Pal√°cio La Moneda ou de um bairro rico de Santiago.

BBC News Mundo – Prefere ser chamado de presidente ou apenas de Gabriel?

Boric – √Č um desafio, mas tenho entendido que √© importante assimilar a institui√ß√£o presidencial. Porque hoje estou assumindo uma institui√ß√£o que j√° existe. Por isso, sem perder a minha ess√™ncia, acredito que seja importante o que foi constru√≠do e o que vem depois. Nesse sentido, penso que nesse momento eu deva se tratado como a institui√ß√£o que represento.

BBC News Mundo РO sr. passa a sensação de que é muito importante para si demonstrar afeto.

Boric – √Č que em um pa√≠s t√£o agredido ultimamente, t√£o dividido, √© importante que nos amemos de novo. Para mim, a preocupa√ß√£o com a sa√ļde mental foi fundamental no meu desenvolvimento nos √ļltimos anos, e entender que, como chilenos, nos falta afeto. E se algu√©m pode contribuir um pouco para dar isso, me parece uma boa hora.

Agora, ouvir tem muito de reparar. Quando voc√™ ouve uma pessoa, mesmo que n√£o consiga resolver o problema dela, voc√™ come√ßa a gerar um v√≠nculo diferente, ciente, insisto, de que provavelmente nem todos os problemas ser√£o resolvidos. Mas vai se tendo um term√īmetro diferente. Se voc√™ se cercar apenas das mesmas pessoas que s√£o iguais a voc√™, da mesma classe social que voc√™, ou que pensam igual a voc√™, voc√™ acaba em uma bolha que distorce a realidade. E esse √© um problema end√™mico da pol√≠tica que temos que tentar mudar.

N√£o estou dizendo que somos mais virtuosos, ou moralmente limpos, mas que, aprendendo, e vou insistir muito nessa ideia, a partir dos erros e acertos do passado, devemos mudar e melhorar.

H√° uma frase que citei recentemente em um discurso e de que gosto muito. √Č do compositor Gustav Mahler, que diz que ¬ęa tradi√ß√£o n√£o consiste no culto √†s cinzas, mas na preserva√ß√£o do fogo¬Ľ e que, de uma forma forma, tamb√©m √© um leitmotiv.

BBC News Mundo – H√° tamb√©m muitos que o temem, ou melhor, que n√£o confiam em seu discurso de chamamento… ¬ęLobinho disfar√ßado de cordeiro¬Ľ, comentam alguns. O que o sr. representa que pode gerar medo em parte da elite?

Boric РParte da elite é muito egocêntrica, isso ainda é muito inato. Por viverem em uma posição privilegiada por tanto tempo, qualquer mudança gera a incerteza que a maioria dos chilenos vive no dia a dia. E isso gera rejeição. Uma rejeição um tanto atávica.

Espero, por um lado, que as elites deixem de ter medo de nós. Não espero que concordem comigo, mas espero que parem de ter medo de nós.

Mas essa desconfian√ßa n√£o √© uma cr√≠tica infundada, porque de alguma forma se passou de um pol√≠tico de frases e a√ß√Ķes √†s vezes impetuosas para um pol√≠tico acolhedor, moderado…

No caminho da pol√≠tica, que se cruza com o da vida, h√° sempre aprendizados, e na minha constru√ß√£o pol√≠tica prefiro ser barro do que pedra. As experi√™ncias ou a√ß√Ķes nas quais alguns se baseiam para fazer esses julgamentos tamb√©m s√£o o que me moldou. Porque errando √© que eu consegui aprender. Ent√£o eu n√£o veria isso como um problema, mas como parte de um processo de aprendizagem.

BBC News Mundo – Outra d√ļvida √© a capacidade de seu setor, muito millennial para alguns, de garantir a governabilidade do pa√≠s‚Ķ

Boric – Essa cr√≠tica de que somos muito millennials [nascidos entre 1980 e 1996] √© como se tiv√©ssemos dito uma vez que os baby boomers [nascidos entre 1946 e 1964] nunca poderiam ter assumido o poder quando s√£o eles que governam o Chile nos √ļltimos 30 anos.

Essa cr√≠tica fica aqu√©m da perspectiva hist√≥rica quando se v√™ o que as gera√ß√Ķes anteriores foram. No ¬ęBalan√ßo Patri√≥tico¬Ľ, (Vicente) Huidobro em 1920 disse muito claramente sobre os primeiros anos da Rep√ļblica, tudo de grande no Chile foi feito pelos jovens: (um dos l√≠deres da independ√™ncia chilena Jos√© Miguel) Carrera aos 26, (outro l√≠der da independ√™ncia chilena Bernardo) O’Higgins aos 36, (o guerrilheiro da independ√™ncia chilena) Manuel Rodr√≠guez aos 24‚Ķ Voc√™ tem que olhar para a hist√≥ria e ver que n√£o √© um fen√īmeno novo. N√£o √© preciso ter tanto medo disso.

BBC News Mundo – Sua vit√≥ria nas elei√ß√Ķes representa o triunfo de uma ideia de sociedade ou do olhar de uma nova gera√ß√£o?

Boris – Como tudo em coisas assim, √© m√ļltiplo. Tem a ver com o surgimento de uma nova gera√ß√£o, com a necessidade de renova√ß√£o, com a ideia de uma sociedade que se op√Ķe claramente ao que o atual governo apresentou e √† candidatura com que nos deparamos no segundo turno. √Č o oposto do gestor 24 horas por dia, 7 dias por semana, o self-made man que estudou apenas em universidades estrangeiras, mas tamb√©m tem a ver com conhecer bem a trajet√≥ria do Chile.

BBC News Mundo РParece que sua vitória se deve mais a seu capital político pessoal e pouco a ver com a formação de uma frente ampla ou com sua identidade comunista. Como o Partido Comunista contribui para o seu governo?

Boric РMuito. Nossa aliança é a Aprovar Dignidade, mas chamamos ao gabinete partidos que fazem parte de outra tradição. Devemos conseguir desmistificar os medos contra o Partido Comunista chileno. Tivemos diferenças táticas e outras mais em determinados momentos.

O dia 15 de novembro [data da assinatura do acordo que prevê uma Convenção Constitucional Рórgão encarregado de redigir uma nova Constituição -.e que o Partido Comunista não assinou] é o mais visível, mas o Partido Comunista hoje está comprometido com a implementação do nosso programa. Além disso, foi um partido que, no Chile, foi profundamente democrático e que esteve do lado das lutas sociais e dos oprimidos, e isso é algo que também me inspira.

BBC News Mundo РDois anos após a eclosão de uma crise social, como você entende o que aconteceu então?

Boric РAcho que foi um momento de muita frustração com as promessas da meritocracia que não estavam sendo cumpridas. E havia uma consciência coletiva de que isso não estava acontecendo em diferentes partes do país.

E esse encontro levou a uma mobilização fora dos canais institucionais que, por sua vez, uniu raiva e esperança. Espero que o que prevaleça nisso seja a esperança.

Paralelamente a isso, enquanto discutimos as regras do futuro, temos que ser capazes de resolver os problemas específicos das pessoas, que foram particularmente afetadas pela pandemia.

BBC News Mundo – Existe a possibilidade de um governo de esquerda comedido e reformista?

Boric – Discordo da obsess√£o da elite em nos moderar nosso discurso e de nos rotular. √Č mais um complexo deles do que nosso. Temos uma dire√ß√£o e vamos caminhar rumo a ela. E essa dire√ß√£o √© criar um Estado que consagre os direitos sociais universais, com pleno respeito aos direitos humanos, que descentralize o poder, que assuma os desafios ambientais, da crise clim√°tica.

BBC News Mundo – N√£o estamos falando de modera√ß√£o, ent√£o…

Boric РA ideia de ser equilibrado em vez de moderado faz mais sentido para mim. Há alguns fanáticos da moderação que acabam não se movendo, e esses fanáticos causaram danos profundos ao país. Porque, com um medo atávico da mudança, acabaram estourando a panela de pressão.

BBC News Brasil РO sr. está mais próximo da social-democracia ou do comunismo?

Boric РVenho da tradição socialista libertária chilena. Esse é o meu espaço ideológico de referência. Sou democrata e acredito que a democracia tem que mudar e se adaptar e não se petrificar. Acredito que a democracia no Chile carece de maior densidade.

BBC News Brasil РE dentro da América Latina, o sr. se reconhece em algum dos governantes de esquerda?

Boric – Espero trabalhar ao lado de Luis Arce, na Bol√≠via, de Lula se ele ganhar as elei√ß√Ķes no Brasil, de Gustavo Petro, cuja experi√™ncia se consolida na Col√īmbia. Acho que pode ser um eixo interessante.

Entendo que a pergunta est√° relacionada √† Venezuela e √† Nicar√°gua. No caso da Nicar√°gua, n√£o consigo encontrar nada l√°, e no caso da Venezuela √© uma experi√™ncia que fracassou, e a principal demonstra√ß√£o de seu fracasso √© a di√°spora de 6 milh√Ķes de venezuelanos.

BBC News Mundo РO sr. se sente parte da geração de Jacinda Ardern, Sanna Marin, Emmanuel Macron, até mesmo Alexandria Ocasio-Cortez? Existe algo maior, além de todos terem menos de 45 anos?

Boric – N√£o sei em detalhes quais s√£o as convic√ß√Ķes de cada um deles, e ter a mesma idade n√£o indica necessariamente alguma coisa.

Posso dizer que tenho uma proximidade ideol√≥gica com [o pol√≠tico boliviano √Ālvaro] Garc√≠a Linera, independentemente de sua idade, ou uma clara cumplicidade com o Podemos na Espanha, que n√£o tem nada a ver com uma quest√£o de idade, mas com as convic√ß√Ķes que temos. E valorizo ‚Äč‚Äčmuito a experi√™ncia de Lula, mas tamb√©m procuro conhecer a de [Fernando Henrique] Cardoso. N√£o se pode ter refer√™ncias est√°ticas.

O que √© certo √© que hoje existe uma crise clim√°tica global partir da qual acredito que nossa gera√ß√£o vai adquirir uma consci√™ncia maior do que as anteriores. E que eu espero seja algo que nos una. Tive a oportunidade de falar sobre isso com [o premi√™ canadense] Justin Trudeau. Recebi uma carta de Emmanuel Macron [presidente da Fran√ßa], tamb√©m nesse sentido, sei que [a premi√™ neozelandesa] Jacinda Ardern teve essa preocupa√ß√£o, ent√£o espero que tenhamos um ponto em comum e forcemos a gera√ß√Ķes anteriores e os governantes de todos os pa√≠ses, como [a ativista] Greta [Thunberg] disse, a agir agora.

PRIORIDADES ECON√ĒMICAS

BBC News Brasil – Quais s√£o suas prioridades na economia?

Boric – Que possamos ter uma consolida√ß√£o da recupera√ß√£o econ√īmica que seja justa. Que n√£o sejam reproduzidas as desigualdades anteriores. E isso implica dar maiores ferramentas √†s pequenas empresas para que haja uma desconcentra√ß√£o do mercado. Hoje, 87% das vendas no Chile est√£o concentradas em grandes empresas e apenas 13% em pequenas e m√©dias empresas. Essa √© a pedra angular da desigualdade em nosso pa√≠s.

Temos que alcançar a combinação entre crescimento e redistribuição. Uma distribuição mais justa da riqueza. Um não é sustentável sem o outro. Todos cresceram, é verdade, mas alguns muito mais do que outros e isso ampliou a fratura da sociedade chilena.

BBC News Mundo – O sr. fala de um pacto tribut√°rio e n√£o de uma reforma, uma diferen√ßa sem√Ęntica fundamental, porque a primeira significa um acordo com todos os setores pol√≠ticos.

Boric – √Č bom que voc√™ perceba isso, porque √© ao que aspiramos.

Não se trata de mocinhos contra bandidos. Queremos que todas as forças produtivas do país concordem que é necessária uma melhor redistribuição de riqueza para crescer. E que também seja sustentável em relação ao meio ambiente, e, para isso, esperamos convocar trabalhadores organizados, pequenas e médias empresas e grandes empresários.

BBC News Mundo – O sr. receber√° um pa√≠s com uma das maiores taxas de infla√ß√£o das √ļltimas d√©cadas, com um d√©ficit relevante. Em que momento pretende comunicar que n√£o ser√° f√°cil cumprir as promessas do seu programa?

Boric РEstamos fazendo isso permanentemente. Temos o compromisso de respeitar o orçamento aprovado pelo Congresso, que tem redução de 22% nos gastos, e também de avançar em nossas reformas na medida em que estamos garantindo receita permanente para o que é considerado gasto permanente. E essa é uma linha da qual não podemos nos desviar. Não pode haver atalhos irresponsáveis. Estou confiante de que a população vai entender.

BBC News Brasil – Qu√£o complexo √© instalar um Estado de bem-estar social em um pa√≠s que n√£o tem os padr√Ķes econ√īmicos ou sociais que os modelos social-democratas mais bem sucedidos t√™m?

Boric РPrecisamos ver como se encontravam os países que desenvolveram Estados de bem-estar social no momento em que optaram por esse caminho.

Os desafios são diferentes. No caso dos países europeus, não apenas os nórdicos, eles decidiram criar Estados de bem-estar que garantissem direitos sociais universais quando tinham um PIB per capita semelhante ou inferior ao do Chile hoje.

Espero que concordemos como sociedade, no sentido de que h√° metas de longo prazo que n√£o ter√£o resultados antes das pr√≥ximas elei√ß√Ķes e que, portanto, muitas das decis√Ķes que tomaremos n√£o podem ser pautadas por uma ansiedade eleitoral e que h√° frutos que n√£o vou colher [durante o governo].

BBC News Brasil РO que diria que é o nosso calcanhar de Aquiles?

Boric – A desigualdade.

BBC News Brasil – E o seu?

Boric Há muitas coisas que poderia dizer, mas, se tivesse que escolher uma, mais do que uma minha pessoal, o grande risco para nosso governo é não conseguir ampliar nossa base social de apoio para além de nossas fronteiras atuais.

Se ficarmos apenas com quem somos hoje, n√£o conseguiremos fazer as transforma√ß√Ķes que queremos. Portanto, se n√£o caminharmos todos juntos, ser√° um desafio muito dif√≠cil.

RESPOSTA À VIOLÊNCIA

BBC News Mundo – Como l√≠der estudantil, o sr. esteve nas ruas muitas vezes, mas muitas dessas manifesta√ß√Ķes terminaram em atos de viol√™ncia. Voc√™s mesmos falaram de pessoas que mancharam aquelas marchas, mas disseram que foram poucas… Hoje, elas parecem ser a norma. O que aconteceu?

Boric – Elas n√£o s√£o a norma em rela√ß√£o √† maioria. O que acontece √© que existem v√°rias explica√ß√Ķes, mas primeiro quero deixar claro que continuo acreditando que o caminho n√£o √© a viol√™ncia, quero deixar bem claro isso. Acredito que h√° uma frustra√ß√£o acumulada ao ver que as mudan√ßas n√£o puderam ser feitas pelos canais institucionais.

Mas a viol√™ncia √© um fen√īmeno que devemos tentar entender para tentar erradic√°-la. Se voc√™ quer ter certeza de que seguir√° havendo viol√™ncia, basta deixar as coisas como est√£o.

BBC News Mundo РHá um setor da esquerda que provavelmente não lhe dará margem para um radicalismo ponderado, e a resposta pode ser mais violência nas ruas. Como pretende lidar com isso?

Boric – Temos o dever de fazer cumprir a ordem p√ļblica, isso n√£o √© uma op√ß√£o para o governo. E fazer cumprir a lei. O que esperamos √© que, atrav√©s do processo de transforma√ß√£o que vamos iniciar, da convoca√ß√£o e da forma como falamos com povo do Chile, esses setores sejam cada vez mais minorit√°rios.

BBC News Mundo РQue tipo de Constituição te atrai mais, uma bem regulamentada ou uma mais orientadora?

Boric – Gosto da ideia de uma Constitui√ß√£o orientadora, mas n√£o ass√©ptica. Uma Constitui√ß√£o que consagra os direitos sociais universais, que defende a liberdade e a igualdade, uma Constitui√ß√£o que descentraliza, mas uma Constitui√ß√£o que n√£o abarca todas as quest√Ķes e todos os problemas.

A Constitui√ß√£o n√£o pode ser concebida apenas a partir de 2021 e 2022. Ela tem que permitir at√© quest√Ķes que ainda n√£o temos que enquadrar na Constitui√ß√£o.

VIDA PESSOAL

BBC News Mundo РNa esfera pessoal, do que mais teve que abrir mão além dos cabelos compridos e das camisetas de bandas de rock?

Boric РUltimamente, sair para um bar, ir a uma livraria, está cada vez mais difícil.

BBC News Mundo – O senhor √© conhecido por n√£o usar gravata. Em que circunst√Ęncias usaria?

Boric РA gravata tem dois sentidos. Um é estético e um tanto absurdo, mas também percebi que, quando havia no Congresso um espírito de disciplina e homogeneização por parte de uma elite muito fechada e muito parecida entre si e por isso me mandaram para a comissão de ética, por não usar gravata. Agora, isso está totalmente naturalizado e é totalmente normal andar sem gravata no Congresso.

A propósito, uma vez tive a sorte de conhecer [a cantora americana] Joan Baez, e nós dançamos, ela me perguntou sobre esse assunto, porque eles contaram essa anedota sobre a gravata, e meses depois eu ganhei uma gravata feita por aborígenes australianos. Se um dia eu tivesse que usar uma, com certeza seria essa.

BBC News Mundo – E isso pode acontecer logo?

Boric – N√£o pensei nisso. Talvez no casamento de um amigo.

BBC News Mundo – N√£o na posse?

Boric – N√£o, h√° limites.

BBC News Mundo – O sr. vem de uma fam√≠lia religiosa, tem uma m√£e cat√≥lica, que reza e tem um altar √† Virgem em casa. Nada disso faz sentido para o sr. em momentos de ang√ļstia?

Boric – Tenho muito respeito pela f√© da minha m√£e e, √†s vezes, sinto falta do dom da f√©, mas n√£o √© algo que tenho agora, e n√£o acho que seja algo que voc√™ s√≥ possa recorrer em um estado de necessidade. Tenho uma quest√£o pendente de como trabalhar a espiritualidade. √Č algo que sempre me interessou, e nunca tive tempo para faz√™-lo.

BBC News Mundo – Como controla sua ansiedade?

Boric РÀs vezes, comendo, que não é o melhor método. Ler me acalma, quando tenho tempo, pratico esportes, gosto de jogar futebol.

BBC News Mundo РSente que às vezes perde o controle?

Boric РAprendi, graças a tratamentos, a controlar isso. Tenho transtorno obsessivo compulsivo, e tomo remédios. Também é algo que consegui domar graças à Ciência, não é só vontade.

BBC News Mundo – Falou-se muito de sua sa√ļde e tamb√©m do transtorno obsessivo compulsivo de que o sr. sofre e que o sr. tornou p√ļblico. Houve outras inten√ß√Ķes quando essa quest√£o foi levantada durante a campanha eleitoral?

Boric – Sem sombra de d√ļvida. H√° um estigma em torno da sa√ļde mental.

BBC News Mundo – Quais situa√ß√Ķes o incomodam?

Boric – A mentira intencional me incomoda muito, n√£o o erro, as pessoas que falam mal no jornalismo me incomodam, os intrigueiros me incomodam.

BBC News Mundo РO sr. se mostrou um político muito tolerante com as críticas da oposição, mas e quando isso atinge as pessoas que você mais ama, como sua parceira Irina Karamanos, que assumirá como primeira-dama e foi criticada por isso?

Boric РDevemos distinguir entre a crítica construtiva e o debate político que ocorre dentro do feminismo e que é totalmente legítimo, da crítica oportunista. Parece que já houve o suficiente da primeira e pouco da segunda. Os debates do feminismo são desejáveis. Temos que nos acostumar com o fato de que ter diferenças de opinião não significa uma tragédia. Mas, quando os ataques são pessoais, e particularmente contra meus entes queridos, irmãos, pais, amigos ou Irina, é algo que realmente me incomoda muito.

BBC News Mundo РQual é a imagem que gostaria de imprimir com seu governo?

Boric – Que, atrav√©s da pol√≠tica, √© poss√≠vel mudar o mundo. Que a pol√≠tica n√£o √© um espa√ßo de corrup√ß√£o, mentiras e acomoda√ß√Ķes. A pol√≠tica pode ser um trabalho honesto para transforma√ß√Ķes sociais, inclusivas, n√£o apenas profissionais.

Nacho Vega

Nacho Vega. Nac√≠ en Cuba pero resido en Espa√Īa desde muy peque√Īito. Tras cursar estudios de Historia en la Universidad Complutense de Madrid, muy pronto me interes√© por el periodismo y la informaci√≥n digital, campos a los que me he dedicado √≠ntegramente durante los √ļltimos 7 a√Īos. Encargado de informaci√≥n pol√≠tica y de sociedad. Colaborador habitual en cobertura de noticias internacionales y de sucesos de actualidad. Soy un apasionado incansable de la naturaleza y la cultura. Perfil en Facebook:¬†https://www.facebook.com/nacho.vega.nacho Email de contacto: nacho.vega@noticiasrtv.com

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